Todo brasileiro guarda uma Copa do Mundo dentro de casa.
Guarda um pedaço de tempo.
A minha mora numa gaveta de memórias onde ainda existe uma televisão de antena externa ligada. Era 2002. O ventilador girava preguiçoso. O cheiro de café exalava a madrugada. O vizinho da casa da frente fazendo churrasco antes do sol raiar. Minha família sentada no sofá onde, por alguma razão desconhecida, acreditava que podia influenciar o resultado do jogo.
Desde então, o Brasil colecionou Copas e promessas interrompidas. O hexa virou uma palavra curiosa. Não é exatamente um título. É um lugar para onde olhamos há anos.
Outro dia encontrei um grupo de amigos discutindo escalações. Nenhum deles era técnico. Alguns mal conseguiam organizar a própria vida profissional. Ainda assim, falavam de esquemas táticos com a segurança de quem conhece os segredos do universo.
Achei bonito.
O futebol é uma das poucas ocasiões em que adultos voltam a praticar um tipo raro de imaginação coletiva. Durante quatro semanas, milhões de pessoas concordam em acreditar na mesma coisa. Não importa o rancor das mensagens não respondidas ou as rugas que apareceram sem aviso. Há sempre a possibilidade de que desta vez dê certo.
A taça, quando vier, ocupará uma prateleira.
E não é mais uma sexta estrela propriamente dita. Mas a sensação de que ainda somos capazes de esperar juntos.
