Eumeu, meu cachorro, levou um tapa do nosso vizinho Chico, um gato laranja com temperamento forte, quando pensei: cara, deus opera milagres é pelas coisas que chamamos comuns dessa vida; ele, em toda sua sabedoria, vai escondendo os milagres aqui e ali, entre as coisinhas de nosso dia a dia.
Não faz um mês que Chico, esse rapaz de gênio forte, tinha sido dado como morto pelo pessoal do condomínio porque acharam um gatinho tal como ele atropelado na CEASA. Fizemos as contas: dividimos o condomínio com uma grande população felina, Chico já tem fama de viver perigosamente e gatos são atropelados com frequência nessa cidade de São Luís. Um, mais um, mais um e não deu outra: o bichinho já fazia morada na mansão celestial. “Bom pra ele”, confiei com esperança.
Quem disse que não pode ser milagre a ressureição de um gato de rua, querido pelos seus vizinhos? Quantas cordinhas e pauzinhos o senhor, nosso salvador, não precisou mexer para salvar a vida de Chico? Porque nós, grandes bobos megalomaníacos desse mundo cheio de criaturas, projetamos no senhor essa noção do milagre como um acontecimento sensacional, raro e impactante que, sim ou sim, será notado por tudo e todos. Quem nos garante, afinal, que a vida de Chico não ocupa um papel central no grande esquema das coisas?
O mesmo, dou fé, deve acontecer com todos fenômenos terrenos que são causados por movimentações sobrenaturais: se alguém jogou feitiço, por exemplo, e que feitiço, no Vasco da Gama, o agouro não se cumprirá com eventos sensacionais de difícil explicação comum; pelo contrário, ele se realiza numa década de desgraças, derrotas e fracassos facilmente explicáveis em termos futebolísticos. Se alguém botar teu retrato num prato com pimenta, caro leitor ou leitora, deus livre, tu não vai soltar fogo pela venta: tua sobrancelha pode tremer todo dia, tu pode acordar oito vezes por noite ou todo dia perder o ônibus que passa vazio na parada. O feitiço agourento, como o milagre, encontra na obviedade do cotidiano o terreno perfeito pra se fazer verdade.
O Filho do Homem, marceneiro de formação, milagreiro mais famoso da História, por exemplo, andava descalço nas manhãs de terça-feira pelas ruas da Galiléia multiplicando peixes e pães, levantando mortos e fazendo vinho de água; São Francisco de Assis, o amante dos animais desgarrados, curou leprosos e cegos com a facilidade de quem fatia um pudim; São Bento, que, ao que tudo indica, tinha uma legião de haters, frustrou tentativas de envenenamento apenas com o poder da oração.
A vida acontecendo à luz do dia, em toda sua mais pública e escancarada evidência, e o senhor deus permitindo que sua glória e poder toquem o barco da nossa pequena existência: são nesses momentos que o banal mostra pra nós sua conexão íntima e inquebrantável com o sobrenatural.
