O celular vibrou no meio da reunião. Um conhecido, que semana passada reclamava do chefe no café requentado, hoje sorria emoldurado por um pôr do sol estratégico: “vivendo o que sempre sonhei”. Entre uma pauta e outra para escrever, senti aquele pequeno descompasso, como se o sucesso tivesse catraca e eu tivesse ficado presa do lado de fora.
Na instituição, a gente entrega metas; nas redes, entrega versões. E versão, diferente de meta, não precisa bater: precisa convencer. Há quem bata ponto na própria felicidade… Suor às seis, gratidão às sete, foco às oito. A vida em formato de checklist, com filtro que não deixa passar olheira e atrasos. Tudo muito alinhado, como se o desalinho fosse uma falha de caráter e não um sintoma de existir.
Aos poucos, fui entendendo que não se trata apenas de viver, mas de caber. Caber no algoritmo, no olhar do outro. Viver, no bruto, ocupa espaço demais: tem pausa, tem dúvida. A vida postada é enxuta, editada, quase obediente. Uma felicidade que aprende a posar antes mesmo de acontecer.
No intervalo, alguém falou sobre consistência. Não aquela que sustenta decisões difíceis, mas a que sustenta presença digital. “Sumir derruba alcance”, disseram, como se desaparecer um pouco não fosse, às vezes, a única forma de se encontrar. Fiquei pensando em quantas narrativas a gente mantém atualizadas enquanto a vida real roda em segundo plano.
Talvez a utopia tenha mudado de endereço. Antes, era sobre chegar. Hoje, é sobre parecer. Parecer pleno e produtivo; ainda que por dentro a gente esteja em modo rascunho. Rascunho não engaja, não performa. Mas é nele que a vida escreve, apaga, reescreve…
No fim do dia, voltei para casa com um sentimento difícil de nomear. E talvez seja esse o ponto: a vida mais inteira não cabe em um post. Aquela que acontece sem provas, sem edição, mas com presença real. É nesse silêncio que não se publica que a gente descobre: nem tudo que não é visto deixa de existir. Às vezes, é justamente o contrário.
