Houve um tempo em que amizade se media pela frequência dos encontros. Bastava um assobio no portão ou um “bora descer?” vindo da rua, e a tarde já estava resolvida. Hoje, quase tudo cabe numa notificação: memes, áudios acelerados, promessas de sushi que vivem adiadas.
Encontrei Gabriel numa terça-feira chuvosa, diante de uma banca que vendia mais carregador de celular do que revista. Ele apertou os olhos antes de sorrir, como sempre fazia.
“Rapaz…” – ele disse.
E havia tanta coisa naquele “rapaz” que a chuva pareceu diminuir por respeito.
Fomos tomar açaí perto da praça. Conversamos primeiro sobre o protocolo adulto dos reencontros: “e o trabalho?”; “e tua mãe?”; “tu sumiu, hein?”. Depois veio o silêncio confortável. Esse só existe entre amigos antigos.
Gabriel brincava com os acompanhamentos do açaí, num movimento de mãos típico de quem está com o pensamento longe.
“Lembra quando a gente ia pro colégio a pé?”
Lembrei imediatamente. A gente atravessava ruas enormes falando do futuro como quem fala de um lugar garantido. Ele queria ser engenheiro. Eu queria ser cantora, mas dizia que seria advogada. Nenhum dos dois virou exatamente o que sonhou, mas talvez crescer seja aprender que a vida distribui caminhos, não certezas.
Rimos do professor de matemática, da menina que ele tentou impressionar com uma poesia copiada de música…
Antes de irmos embora, mostrou uma foto antiga nossa: magros, queimados de sol e absurdamente confiantes. Fiquei olhando para aquelas duas criaturas como quem visita uma cidade onde já morou.
Nos despedimos rápido. A chuva tinha parado.
Vi Gabriel desaparecer na esquina e entendi: verdadeiras amizades não acabam. Apenas aprendem a existir nos intervalos da vida.
