Tem gente que acha que amor é compatibilidade. Gostar das mesmas músicas, votar parecido, dividir assinatura de streaming e escova de dentes. Mas isso é convivência organizada. Amor mesmo é outra coisa. Arrisco dizer que é quando a presença do outro bagunça a mobília interna da gente.
Conheci uma mulher que dizia amar um homem porque ele lavava o arroz antes de cozinhar. “Com delicadeza”, ela fazia questão de dizer. Como se girar os dedos dentro de uma bacia pudesse ser unidade de medida para alguma coisa. E talvez possa. O amor mora nessas avaliações absurdas, mesmo. Ninguém se apaixona por grandes feitos. A gente se perde é no detalhe inútil.
No começo, ela ria do jeito dele esquecer os óculos pela casa. Meses depois, já sabia encontrá-los antes mesmo que ele percebesse a ausência. Amar alguém é, também, virar mapa dos descuidos do outro.
Mas existe um momento, quase invisível, em que o amor deixa de ser encanto e vira permanência. É quando você conhece as sombras da pessoa.
O amor também cansa. Essa é a parte que dói. E tem dias em que amar parece um emprego sem férias. Você escuta pela quinta vez a mesma insegurança, a mesma reclamação, o mesmo silêncio pesado na mesa do jantar.
Ainda assim, alguma coisa permanece ali.
Talvez porque o amor não seja encontrar alguém extraordinário. Talvez seja só encontrar alguém cujos defeitos não nos dão vontade imediata de fugir.
Ou dão.
Mas a gente perde o voo tentando ficar.
