A Pequena Companhia de Teatro, sediada no Maranhão e liderada pelo encenador Marcelo Flecha, está subvertendo a hegemonia teatral do eixo Rio-São Paulo. O grupo, fundado em 2005, foi destaque na coluna Mise-en-scène da Folha de S.Paulo por sua ocupação no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo (CCBB SP), que reúne quatro montagens e uma exposição, consolidando uma “consciência periférica” baseada em autonomia técnica e densidade poética.
O espetáculo em cartaz: A montagem “Ensaio sobre a memória”, livremente inspirada no conto “A outra morte”, de Jorge Luis Borges, transfere o tempo metafísico do autor argentino para a urgência política latino-americana. A peça foca na mecânica da culpa e na construção de “fake news subjetivas”, com o protagonista Damián (Lauande Aires) retratado não como um herói, mas como um homem estilhaçado pela tortura.
A encenação labiríntica: O palco torna-se um tribunal da consciência conduzido por um Escritor (Cláudio Marconcine) e sua Memória (Dênia Correia). Versões contraditórias do mesmo fato são reencenadas, privilegiando a tensão física em detrimento do psicologismo. A precariedade dos recursos é transformada em potência estética, com um brinquedo de madeira construído há 50 anos pelo pai de Flecha servindo como eixo cenográfico.
A programação da ocupação: Além de “Ensaio sobre a memória”, a mostra no CCBB SP inclui as montagens “Velhos Caem do Céu como Canivetes”, “Pai & Filho” e “Desassossego”. A ocupação é coroada pela exposição “Pequena Mostra de Teatro” no foyer, que revela figurinos, diários de processo, e por oficinas que discutem a transformação de resíduos em dramaturgia visual.
O método de resistência: Segundo Marcelo Flecha, a montagem aborda um tema delicado para o momento histórico, dialogando com o espectador sobre variações da história e o apagamento da memória. A ideia é “corroborar esteticamente” para que o público se comunique profundamente com a obra, reforçando o teatro como compromisso político de longa duração.
A voz da crítica: O colunista André Marcondes, da Folha de São Paulo, destaca que o que se vê em São Paulo é a vitória de uma linguagem que não se intimida pela falta de fomento, fazendo da autonomia sua maior virtude cênica. “É o teatro maranhense reafirmando que a verdadeira universalidade nasce do aprofundamento das próprias raízes”, escreve.
“Nossa construção não naturalista é um posicionamento político de estabelecer outras possibilidades para o espectador”, afirmou Marcelo Flecha à Folha, explicando o método do grupo de ampliar a percepção do público sobre o ser humano.
“Ensaio sobre a memória” está em cartaz no CCBB SP (rua Álvares Penteado, 112, Centro Histórico) até 20 de abril, com ingressos gratuitos. A programação completa da ocupação da Pequena Companhia de Teatro pode ser conferida no site do CCBB.